Boletim 2 – Coronavírus e crise política
Boletim 2 – Coronavírus e crise política

20/05/2020 -

Boletim Coronavírus 2Por Eduardo Barbabela, Mariane Matos, Lidiane Vieira e João Feres Júnior

 

Neste Boletim M, a equipe do Manchetômetro apresenta uma análise dos editoriais publicados nos grandes jornais brasileiros durante abril de 2020, para entendermos seu posicionamento perante à pandemia do coronavírus e as crises políticas geradas no quarto mês do segundo ano do governo Bolsonaro. Você também pode ouvir o Podcast que gravamos analisando esses dados.

O GLOBO

Os gráficos abaixo contêm o agregado de textos, com suas respectivas valências, das coberturas sobre Política, Economia, Jair Bolsonaro, Governo Federal, respectivamente, nos editoriais d’O Globo.

O Globo dedicou espaço editorial diário aos diversos aspectos da crise do coronavírus e da crise política iniciada com a demissão de Sérgio Moro do Ministério da Justiça. Dois dos personagens centrais nos editoriais de março, o então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e o presidente, Jair Bolsonaro, continuaram, inicialmente, como os destaques da cobertura em abril. Bolsonaro teve dois momentos marcados por críticas distintas durante a cobertura: nos primeiros vinte dias, foi criticado por sua falta de iniciativa para coordenar os poderes para garantir a proteção necessária aos profissionais da saúde e à população e por suas ações e falas desestabilizantes. O atraso na sanção presidencial do projeto de renda mínima e as ações coordenadas de bolsonaristas que “fritaram” diversos ministros no período também foram criticadas. Ao final do mês, após a demissão de Moro, surgiram textos que criticavam as novas alianças do governo com o Centrão visando a construção de uma base parlamentar forte para evitar um possível pedido de impeachment contra o presidente e também discutiam as acusações do ex-ministro da justiça.

Mandetta, por sua vez, foi novamente defendido pelo seu papel à frente do Ministério da Saúde no combate à Covid-19. Sua saída do Ministério foi vista como um fato grave, principalmente por ocorrer em um momento de agravamento da pandemia no país e por retirar um importante quadro de articulação entre União, estados e municípios. Outro personagem que ganhou algum destaque no final do mês, foi o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, que anunciou sua demissão do cargo após acusar o presidente de tentar interferir politicamente na Polícia Federal. A crise foi apresentada como mais um reflexo da “inépcia” de Bolsonaro para governar o país e por interesses antidemocráticos dele ao interferir na Polícia Federal. Ao presidente foram imputadas preocupações não “republicanas” e suas explicações foram consideradas insuficientes, o que reforçaria a importância de investigar as denúncias feitas por Moro.

O Globo defendeu a renda emergencial como meio para proteger não apenas os mais vulneráveis da sociedade, mas também a própria economia do país. A crise econômica do país e dos estados também foi tema recorrente nos editoriais, que insistiram em cotejar a importância da ajuda aos estados com o equilíbrio das contas públicas. Os editoriais, de modo geral, também reconheceram a importância do STF e do Congresso em garantir que Bolsonaro entendesse os limites de seu poder como chefe do Executivo Federal.

ESTADÃO

Os gráficos abaixo contêm o agregado de textos, com suas respectivas valências, das coberturas sobre Política, Economia, Jair Bolsonaro, Governo Federal, respectivamente, nos editoriais do jornal Estadão.

O Estadão teve uma grande preocupação com as fake news e a desinformação durante o mês de abril. Esse foi, inclusive, um dos principais temas das críticas do periódico a Jair Bolsonaro e a uma ala de seu governo e apoiadores, implicados na divulgação recorrente de informações falsas que afetam diretamente os brasileiros, prejudicam o combate à Covid-19 e prejudicam as relações com outros países como a China. O próprio presidente foi alvo de críticas também por se contrapor à ciência e às recomendações da OMS ao defender o fim do isolamento social no país. O jornal ainda elogiou as ações do Legislativo e do Judiciário, considerados pelos editoriais como capazes de proteger o país das irresponsabilidades do Executivo federal.

Um segundo tema de destaque na cobertura do jornal paulista foi a economia. O Estadão discutiu a crise econômica produzida pela pandemia e a importância de responsabilidade do governo federal em um momento em que a contenção de gastos estava em segundo plano, elogiando a aprovação do orçamento de guerra pelo Congresso. A resposta do governo para a crise, no entanto, o programa Pró-Brasil, foi duramente criticado por ser desorganizado e refletir os desentendimentos internos do governo. O jornal ainda alertou que as recentes provocações de membros do governo e de apoiadores do presidente à China poderiam resultar surpresas desagradáveis no que toca o comércio exterior brasileiro.

As crises políticas no governo Bolsonaro também foram temáticas recorrentes. A demissão de Mandetta foi vista com muita desconfiança, principalmente pelo trabalho realizado frente ao Ministério da Saúde, que o jornal considerou bom, e criticada por ser um movimento pautado por interesses eleitorais do presidente. A saída de Moro propiciou outro momento de crítica ao governo Bolsonaro, que estaria sob o signo de Tânatos, o deus da morte, destruindo tudo que encontra pela frente, instaurando uma nova crise política em Brasília. Além disso, do cargo público para pressionar outros poderes e entes da federação foi duramente criticada como uma afronta à democracia e como um reflexo de que Bolsonaro não estaria à altura da presidência. Mas o Estadão acrescenta que a ausência de um líder à altura da presidência do país, não seria exclusividade do governo Bolsonaro, mas uma constante desde o governo Lula, quando passamos a ter presidentes que não querem governar o país.

FOLHA DE S. PAULO

Os gráficos abaixo contêm o agregado de textos, com suas respectivas valências, das coberturas sobre Política, Economia, Jair Bolsonaro, Governo Federal, respectivamente, nos editoriais da Folha de S. Paulo.

Maior intensidade e pluralidade de temáticas foram as características da cobertura de abril, apenas quinze editoriais não tratavam exclusivamente do coronavírus no Brasil. Dentre as continuidades na narrativa estiveram o posicionamento econômico e o tratamento dado ao Presidente da República. Mas em abril tivemos a maior variedade de temáticas e personagens em relação ao mês anterior, com destaque para Mandetta e Moro. No início do mês, os textos focaram na pandemia e seus impactos econômicos, sendo o primeiro editorial sobre a urgência de implementação do auxílio emergencial. Com o passar dos dias, a crise política que se intensificou com a saída de Mandetta foi ocupando espaço, embora a temática do coronavírus ainda continuasse em destaque. Ao final do mês, o desembarque de Sergio Moro produziu um redirecionamento do debate e a pandemia passou a tangenciar o fantasma do impeachment.

Com receio de que os compromissos financeiros necessários durante a crise sanitária se tornassem permanentes, o editorial do dia 12 de abril reivindicou critérios para a ampliação dos gastos e manutenção dos planos de reformas. Dentre as propostas para o futuro estavam: imposto de renda mais progressivo, aceleração de privatizações e precaução para que os ajustes não recaiam sobre os mais vulneráveis. “Gastos sim, mas temporários” foi a frase que representou o posicionamento econômico da Folha, que seguiu enfatizando a necessidade de manter o plano de reformas e o teto de gastos no horizonte. As duas pautas econômicas que receberam atenção e críticas do jornal foram o plano de auxílio ao estados, acusado de possuir brechas facilitando uso indevido de recursos, e o Pró-Brasil apresentado como ameaça à agenda liberal de Paulo Guedes. Foi nesse contexto que Jair Bolsonaro recebeu um dos poucos elogios da Folha, por administrar a disputa entre os militares e Guedes em um “lampejo de sensatez”. A tendência do tratamento a Bolsonaro seguiu os padrões negativos, sendo chamado de: subalterno, espalhador de fake news, impotente, falastrão, estorvo, populista, golpista, uma figura minúscula da política. A pandemia também foi abordada a partir de questões como a violência doméstica, sistema prisional, Enem 2020, crise do petróleo, financiamento para pesquisas, entre outros.

OS TRÊS JORNAIS

Os gráficos abaixo contêm o agregado de textos, com suas respectivas valências, nos temas de Política, Economia, Jair Bolsonaro e Governo Federal, nos editoriais dos três jornais.

CONCLUSÃO

Os três jornais apresentaram o mesmo fio condutor de análise da política durante o período estudado: até a demissão de Sérgio Moro, o debate político esteve associado a importância do combate ao coronavírus, e Bolsonaro foi criticado por prejudicar esse combate. A demissão de Luiz Mandetta não foi capaz de modificar o perfil da cobertura e apenas com a saída do ministro da Justiça notamos a alteração temática. É a partir desse momento que temos a inflexão nos editoriais que se afastam do debate sobre o coronavírus e se concentram quase que exclusivamente em discutir as denúncias de Sérgio Moro contra o presidente. Os editoriais, que antes criticavam o presidente por prejudicar o combate contra a Covid-19, agora censuravam Bolsonaro por suas atitudes antidemocráticas e por tentar intervir na Polícia Federal movido por interesses considerados nada republicanos.

Além da política, a economia também teve algum espaço na cobertura, sempre sob a ótica do suposto equilíbrio entre os gastos para proteger cpfs e cnpjs durante a pandemia e a necessidade de responsabilidade e contrapartidas, como congelamento de salários, de estados e municípios para garantir que o impacto econômico pós pandemia fosse o menos duro possível. Os periódicos tentaram todos preservar sua posição fiscalista mesmo perante à necessidade de se expandir o gasto público para aliviar os efeitos da pandemia, muitas vezes retomando o discurso em prol da continuidade das reformas, tão caro a Paulo Guedes.

O posicionamento da grande mídia no mês de abril seguiu uma pauta de crítica ao governo Bolsonaro no que tocante aos principais momentos políticos do mês. Bolsonaro foi primeiro criticado por sua condução das reações do Governo em resposta à pandemia e posteriormente pelos atos que foram objeto das denúncias de Moro. Enquanto isso, os jornais reafirmaram sua posição de defesa intransigente das medidas de controle estrito do gasto público, só que agora apresentando-as como solução humanitária para a crise e, ao mesmo tempo, usaram das denúncias de Moro para reafirmarem seu compromisso com a agenda de combate à corrupção da Lava Jato, mantendo-se coerentes com o discurso de criminalização da política que professam há mais de década.

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