Centenário Folha de São Paulo – Editoriais em Números
Centenário Folha de São Paulo – Editoriais em Números

Por Lidiane Vieira, Fernanda Cavassana, André Madruga, André Bonsanto, Tatiana Machado e João Tavares
19/02/2021 -

Nesta Edição Especial do Boletim M, a equipe Manchetômetro apresenta o balanço da cobertura jornalística dos editoriais da Folha de S. Paulo acerca dos mais relevantes temas e personagens da política desde o início da cobertura, em 2014.

Nos últimos seis anos, a equipe do Manchetômetro monitora diariamente a grande mídia brasileira. Em virtude do centenário da Folha de S. Paulo, comemorado hoje (19/02/2020), publicamos um boletim com o balanço gráfico da cobertura editorial do jornal desde 2014. O posicionamento da Folha sobre governos, instituições, personagens e partidos políticos ao longo do tempo está representado neste documento.

Nesse período, a postura editorial da Folha direcionada à política nacional é marcadamente negativa, mas claramente se distingue no segundo mandato de Dilma Rousseff e nos dois primeiros anos do Governo Bolsonaro, onde há um crescimento significativo dos editoriais contrários ao Governo Federal. A cobertura contrária a Bolsonaro se intensifica no último ano, o que, entre outros motivos, pode estar diretamente vinculado ao desempenho do país diante da pandemia de Covid-19 e suas consequências nas diversas áreas, para além da saúde. Isso se contrapõe a outra postura assumida pelo jornal após o impeachment de Dilma, uma vez que durante a gestão Temer, houve tendência à queda do número de editoriais negativos ao Governo Federal. Além disso, quando observamos a valência dos ex-presidentes na opinião editorial do jornal, nota-se que, embora predomine a cobertura negativa a Michel Temer na Folha – assim como ocorre com os demais –, no caso dele, houve significativamente mais editoriais ambivalentes, neutros e, também, favoráveis ao ex-presidente. Ou seja, uma proximidade maior da Folha com o referido governo, assim como o jornal marcou sua história recente com um capítulo de alinhamento e defesa à operação Lava-Jato e suas consequências, derivadas da atuação política do judiciário.

Especificamente sobre o impeachment de Dilma, a Folha o abordou em diversos editoriais nos últimos anos, buscando o não posicionamento explícito sobre o tema. Ainda assim, quando expressou uma opinião sobre isso, portou-se principalmente favorável ao impedimento da ex-presidenta. Essa postura negativa à Dilma também é observável na impressionante quantidade de editoriais contrários a Rousseff ao longo desses seis anos.

Lula também foi mencionado negativamente em diversos editoriais da Folha nesse período, que abrange a Lava-Jato e as eleições de 2018. Ressalta-se, ainda, que apesar da cobertura negativa à política, quando observamos o tratamento dado aos partidos, ganha destaque o volume de editoriais da Folha contrários, especialmente, ao PT. Já o PSDB é o partido que mais totaliza editoriais favoráveis, ao lado do MDB. Além disso, quando atentamos às valências desses editoriais às outras instituições, a Polícia Federal é a única entidade cuja referência na opinião editorial foi mais favorável que contrária, de 2014 a 2020.

É importante observar que o número de editoriais contrários ao campo político é mais que o dobro dos editoriais negativos à economia nacional. Ao fomentar a falsa ideia de uma sólida e coesa polarização da esquerda e da direita na política nacional, a Folha atua politicamente tentando defender, desde já, possíveis candidaturas de direita, com roupagem de centro, que se afastem do extremismo e do baixo desempenho de Bolsonaro, mas que mantenham a agenda econômica liberal adotada pelo Brasil nos últimos anos – como debatemos recentemente na Série M – a Folha se move.

Uma das figuras de maior destaque nesta movimentação do jornal foi o governador João Dória, que consolidou sua posição como alternativa a Bolsonaro em 2022 com a corrida pela vacina. Acompanhando a tendência da cobertura do partido tucano, as atuais gestões do governo do estado e da cidade de São Paulo recebem menos menções  contrárias que seus antecessores. O caso da prefeitura desperta mais atenção pela alternância em 2017 de um mandato petista de Fernando Haddad para a breve gestão de João Doria do PSDB, que, embora tenha recebido críticas no primeiro ano, fez despencar a cobertura negativa inclusive para seu sucessor reeleito Bruno Covas. No caso do governo do estado, a ruptura não existe, devido à permanência tucana no poder. Mas quem se destaca, novamente, é João Dória, agora governador, aumentando a cobertura ambivalente a ponto de ultrapassar as contrárias, tendência incomum em nossas pesquisas.     

Pertinente a esse alinhamento político-econômico do jornal, evidenciou-se o posicionamento editorial da Folha diante da pandemia do novo coronavírus e o debate entre o auxílio emergencial e a economia. Em fevereiro de 2020, a Folha afirmou que “mais gastos públicos não necessariamente produzirão resultados em curto prazo”. Só depois, com avanço da pandemia, o jornal se mostrou favorável ao auxílio emergencial. Tal apoio sempre foi acompanhado de ressalvas: a necessidade de manter o limite orçamentário do teto de gastos e de garantir as reformas. Ou seja, “gastos sim, mas temporários”.

Assim como o Governo Federal e a política, a Economia também tem sido enquadrada de forma majoritariamente negativa no apanhado de editoriais dos últimos dois anos. O ministro da economia, Paulo Guedes, geralmente muito louvado pelo jornal, foi perdendo brilho e, mais recentemente, recebeu o lamento de seu desempenho pífio na pauta das privatizações. Dentre as argumentações do jornal acerca da defesa do teto de gastos, um dos principais pontos é o aumento da dívida pública, que atingiu 89,3% em relação ao PIB em 2020. Cenário que impede o crescimento robusto do emprego e só será resolvido com a vacina. Temática que, segundo a Folha de S. Paulo, sofre “omissão funesta da Presidência da República”.

 

Um pouco de sua história

Em 1921, ano de sua fundação, o jornal era ainda chamado Folha da Noite, ganhando mais duas edições, matutinas e vespertinas (Folha da Manhã e Folha da Tarde) nas décadas seguintes. A Folha de S. Paulo como a conhecemos hoje, consolidada a partir de sua identidade “moderna”, veio a se constituir somente no início dos anos 1960, quando a família Frias – junto com Carlos Caldeira Filho – passou a assumir a direção do jornal. É desse período o surgimento do seu reconhecido slogan, “Um jornal a serviço do Brasil”.

Desde então, a Folha tem passado por inúmeras reformulações técnicas, administrativas e/ou gerenciais, ainda que sempre na tentativa de balizar-se por seus – já tidos outrora como “revolucionários” – princípios editoriais, baseados na ideia de um jornalismo independente, plural, apartidário e que busca uma verdade na pretensa objetividade da realidade dos fatos. Seguindo sua cartilha, a Folha já apoiou “revoluções” (sic) e “golpes” ao longo da história, sempre sob o pretexto de estar atuando “a serviço da democracia”, como tem estampado recentemente em suas páginas, em decorrência de recente campanha.

 

Que democracia?

No dia 30 de junho de 1972, o jornal publicou editorial negando a existência de presos políticos no país. Laudatório à Ditadura Militar, que chamou de “revolução”, o jornal enalteceu as conquistas do “Milagre Econômico” e jogou a sujeira do regime para debaixo do tapete. Assim, a Folha prestou um desserviço ao Brasil, afastando-se da missão de fiscalizar o poder público. Por trás da pretensa objetividade, o jornal também cobriu o golpe de 1964 em 1º de abril como apenas mais um acontecimento na política nacional. Não houve respeito ao princípio jornalístico de apresentação dos dois lados de uma mesma história, postura defendida pela Folha em seu Manual de Redação.

Diante disso, a campanha “um jornal a serviço da democracia”, lançada em junho de 2020, revela tentativas de apagamento em dois sentidos pela Folha: 1) ao se contrapor ao governo federal como defensora da democracia, apaga a falsa equivalência entre Bolsonaro e Haddad em editorial no segundo turno de 2018; 2) ao revisitar a “tenebrosa” ditadura, tenta apagar o apoio deliberado ao golpe e ao regime, incluindo o controverso caso da “ditabranda”.

A Folha é também um jornal que gosta de contar e celebrar sua história. Nos anos 1980, auge de seu processo de reformulação política e editorial, encomendou um livro de renomados historiadores uspianos para escrever sua história oficial. O Grupo Folha ainda mantém um selo e editora própria, – onde já publicou uma série de livros sobre a história da imprensa e da empresa – e sempre contou com um seleto time de jornalistas e profissionais comumente escalados para rememorar seus tempos idos, lançando volumosas edições especiais para celebrar sua identidade em tempos de efeméride.

Nas comemorações dos 95 anos da empresa, em 2016, o então diretor do jornal Otavio Frias Filho, havia afirmado que o jornalismo profissional representado pela Folha vivia “um profundo paradoxo”, capitaneado por sucessivas crises econômicas e pelas recentes crises de legitimidade, credibilidade e reconhecimento que têm permeado a instituição. Hoje, com cem anos, a empresa questiona seus leitores, numa espécie de exercício autorreflexivo: “como chegar bem aos 100?” Ao aludir sua trajetória a um tipo particular de existência humana, o sujeito Folha parece querer demonstrar vigor e maturidade. Um jornal que vive bem, mas que parece temer dias que se mostram contados, ou que necessitam urgentemente de novos ares para ressignificar sua razão de ser.

 

Do discurso pelo domínio da verdade nas redes

 

Um dos desafios da grande imprensa na contemporaneidade é justamente manter o discurso de centralidade dos fluxos comunicativos políticos, que se afastam do controle jornalístico dado o contexto digital e a sua intensa e descentralizada circulação de conteúdos. Para além da editora e de outras frentes – como o Instituto Datafolha, de pesquisas de opinião –, há iniciativas do Grupo Folha que buscam manter a autolegitimação do veículo como jornal de referência do debate público. Uma delas é o Projeto Lupa, agência de checagem de declarações e fatos, que busca averiguar a veracidade de informações que ganham ampla circulação na rede.

Recentemente, no dia 11 de janeiro de 2021, a Folha publicou a manchete “Acesso ao jornalismo profissional reduz efeitos de fake news” na sua capa. O que pode servir como uma campanha de marketing do jornalão, também era a apresentação de uma pesquisa inédita feita na cidade de São Paulo, conduzida por cientistas políticos (em parceria com a própria Folha), segundo a qual o acesso ao jornalismo profissional de qualidade, de fato, diminui a chance de um leitor acreditar em fake news. Para chegar a esse resultado, foi realizado um experimento controlado, em que um grupo teve acesso, por meses, a uma assinatura do jornal e outro grupo, não.

No entanto, de acordo com a pesquisa, não basta que o leitor tenha contato apenas esporádico com o jornalismo praticado pela grande mídia brasileira, tampouco os efeitos de diferentes veículos seria o mesmo. Leitores assíduos da Folha, por exemplo, tendem a acreditar 17 pontos percentuais a menos em fake news do que os não assíduos. O mesmo efeito positivo foi encontrado entre leitores do UOL (do Grupo Folha) e da Rede Globo. Em contrapartida, em veículos como a Record, o efeito foi o contrário, negativo.

Por um lado, a pesquisa ressalta a necessidade de a população ter acesso a mais informações para conseguir realizar uma leitura crítica sobre conteúdos que circulam nas plataformas. Por outro, reforça a importância do monitoramento contínuo da mídia que, aos poucos, tem retomado índices de confiança da população, especialmente diante da pandemia. Afinal, os veículos de imprensa não estão isentos de erros e necessidade de checagem da apuração que fazem, mesmo aqueles centenários.

 

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