Um jornal a serviço de quem? A Folha e a (sua) defesa da democracia.
Um jornal a serviço de quem? A Folha e a (sua) defesa da democracia.

Por André Bonsanto e João Feres Júnior
11/08/2020 -

 

“Apoio à democracia bate recorde diante do risco Bolsonaro”. A manchete publicada na capa da Folha de S. Paulo do dia 28 de junho de 2020 – divulgando resultados de uma pesquisa Datafolha sobre o índice de satisfação do brasileiro com o atual regime democrático –, deu início a uma ampla campanha do jornal em defesa da democracia, alterando inclusive sua notória assinatura “a serviço do Brasil”, estampada pela empresa desde o início dos anos 1960. A campanha surge no momento em que a “vultuosa maioria” da população (75%) se colocava a favor da democracia, maior índice desde que o instituto começou a aferir os dados, em 1989. Ao mesmo tempo, justificava a Folha, este apoio se dava junto a um crescente agravamento da crise política do governo Jair Bolsonaro, que chegou a enfrentar diretamente o Congresso e o Supremo Tribunal, apoiando atos de fechamento destas instituições e insinuando, inclusive, o uso das Forças Armadas a seu favor.

Estava preocupada a Folha, ao que parece, em não apenas evidenciar o apreço dos brasileiros para com a democracia, mas rechaçar as políticas do atual presidente, bem como mostrar a seus leitores que estes ataques sistemáticos de “extremistas” e apoiadores do governo ou se dariam por simples atos de má fé, ou por desconhecimento dos “horrores da máquina cruel que se instalou com a ditadura militar em 1964”[1]. O jornal, então, lançou naquele dia uma ação a partir de três frentes: uma campanha publicitária, seguida de especial jornalístico e um curso gratuito intitulado “o que foi a ditadura”. Além disso, a Folha asseverou que seguirá estampando em todas as capas de suas edições dominicais – e até as próximas eleições presidenciais – a hashtag #UseAmarelo pela Democracia, em clara alusão à campanha das Diretas Já, protagonizada pelo jornal no período de redemocratização do país.

Frente a este cenário, nos cabe perguntar qual agenda estaria por trás dessa estratégia adotada pelo jornal de resgatar dramaticamente a ditadura – como um passado sombrio, que precisaria ser “ensinado” e combatido, para não mais se repetir – para contrapô-la à democracia, instituição da qual o jornal estaria “a serviço”, único horizonte possível, ainda que em aparente cenário de crise e fragilidade. Por que seria necessário, para um jornal como a Folha, posicionar-se sob estes termos em pleno ano de 2020? Atuando desta forma, o jornal estaria a serviço de que? E de quem? Visando quais expectativas futuras?

A Folha já tinha se tornado um desafeto de Bolsonaro antes mesmo do início de seu governo. Em entrevista ao Jornal Nacional, em outubro de 2018, o recém eleito presidente chegou a afirmar que jornais como a Folha não tinham “prestígio mais nenhum… por si só esse jornal se acabou”[2]. Boa parte da irritação do ex-capitão teve por motivo as matérias produzidas pelo jornal àquele ano, que investigaram o uso de maquinaria para produção de notícias falsas em massa por parte de sua campanha.

O monitoramento feito pelo Manchetômetro[3] mostra que, de fato, o jornal tem sido bastante incisivo em suas críticas ao atual governo. Desde o início de seu mandato, até junho de 2020, momento em que a Folha daria início à campanha acima mencionada, o jornal publicou um total de 3.514 textos opinativos diretamente relacionados à figura do presidente. Deste número, 2.461 (70%) continham críticas diretas e/ou um posicionamento contrário ao presidente, 545 (15,5%) se mostravam neutros, 372 (10,5%) ambivalentes e apenas 136 (3,87%) dos textos continham análises favoráveis à sua figura.

Sem nos atermos ao teor dessas críticas, nos parece que por trás deste embate entre o jornal e a figura do presidente está a crise de legitimidade do próprio jornalismo profissional. Há uma preocupação evidente dos órgãos da grande imprensa brasileira, da qual a Folha é um dos maiores baluartes, em passar o argumento de que a atual crise de legitimidade das instituições democráticas pode ser mitigada pelo incremento de sua atividade jornalística. Não à toa, recentes campanhas publicitárias anunciando assinaturas do jornal foram enfáticas em utilizar os seguintes argumentos: “Assine a Folha: apoie a democracia”; “Jornalismo profissional é a melhor defesa para a democracia”; “Mais jornalismo = mais democracia”.

Ao fazer essa identificação escancarada de seu ethos jornalístico com a democracia, chamando atenção para a atual ameaça sob a qual ela se encontra, a Folha pretende apagar sua contribuição recente a esse estado de coisas. Quando do segundo turno da campanha à presidência de 2018, o jornal, repetidas vezes, publicou editoriais nos quais igualava Bolsonaro a Fernando Haddad, do PT, argumentando que ambos representavam ameaças equivalentes à democracia – tema que será objeto de estudo a ser publicado brevemente pelo Manchetômetro.

A atual adesão aguerrida à democracia feita pela Folha é tentativa de fazer um segundo apagamento histórico, esse referente ao longínquo e agora visto como “tenebroso” e “truculento” período da ditadura militar. O jornal não só apoiou o golpe de 1964, como seu dono à época, Octavio Frias de Oliveira (1912-2007), era integrante do Ipes (Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais), órgão de agitação da direita contra Jango, tendo supostamente auxiliado também nos trabalhos da Oban (Operação Bandeirante), responsável pela repressão à luta armada durante o regime. O jornal veio a público em 2014 fazer um mea culpa, após as repercussões negativas do polêmico caso da “ditabranda”, mas desde então parece ter esquecido o apoio ao regime autocrático instalado em 1964.

Estar “a serviço” da democracia neste cenário parece ser uma clara estratégia de autolegitimação do jornal. Além disso, ao pretender ensinar às novas gerações o que foi o período da ditadura, interpretando-o para o presente, o jornal assume protagonismo no que toca leituras daquele passado. Uma estratégia bastante inteligente utilizada pela Folha para ressignificar sua identidade no tempo, silenciando possíveis colaboracionismos e reescrevendo a (sua) história em seus próprios termos. É à sombra desse duplo esquecimento que, em fevereiro do próximo ano, a Folha completará um século de existência, sempre “a serviço” da democracia e do Brasil.

[1] Folha de S. Paulo, ano 100, nº 33.324, 28 de junho de 2020.

[2] Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/10/esse-jornal-se-acabou-diz-bolsonaro-ao-jornal-nacional-sobre-a-folha.shtml Acesso em: 30 de julho de 2020.

[3] Ver os boletins mensais da cobertura do Manchetômetro em http://manchetometro.com/index.php/category/publicacoes/boletim-m/

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