AS PERCEPÇÕES DA MÍDIA BRASILEIRA SOBRE O ACORDO NUCLEAR DO IRÃ
AS PERCEPÇÕES DA MÍDIA BRASILEIRA SOBRE O ACORDO NUCLEAR DO IRÃ

21/08/2020 -

Por Lucas Brito, Beatriz Bandeira de Mello e João Feres Jr.

O acordo nuclear com o Irã, ou Plano de Ação Conjunto Global (JCPoA, na sigla em inglês) foi formalmente selado em julho de 2015 como resultado de um longo processo de negociações, discussões e aproximações delicadas entre o país asiático e o grupo chamado P5+1 (ou E3+3) formado pelos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas e a Alemanha. Com o objetivo de regulamentar o processo de enriquecimento de urânio do Irã, mantendo-o em níveis considerados pacíficos, o acordo começou a vigorar em 2016 após vistoria realizada pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), também responsável pelo monitoramento e aplicabilidade das condições estipuladas no JCPoA. Somente em 2016, o Irã foi vistoriado 11 vezes.

Considerado um instrumento capaz de minar a capacidade de desenvolvimento de armas nucleares no Irã e um meio para frear a corrida armamentista no Oriente Médio, o acordo foi noticiado por grande parte da mídia ocidental e especialistas em política internacional. Cabe ressaltar que na região, Israel é um dos países que faz uso de tecnologia nuclear, porém, ao contrário do Irã, possui laços históricos com os Estados Unidos e países europeus, tendo um conflito de interesses com iranianos e sauditas. Uma das consequências do JCPoA foi o levantamento, por parte dos países signatários, das sanções econômicas e comerciais impostas ao Irã e que eram vigentes até aquele momento.

Nos últimos quatro anos o Acordo passou por diferentes momentos, sendo os Estados Unidos o país mais sensível dentre os signatários. O ex-presidente democrata Barack Obama, em seu último ano de mandato, participou ativamente das negociações. Entretanto, a manutenção e consolidação do acordo ficou a cargo de seu sucessor na Casa Branca, o republicano Donald Trump. Ainda como candidato, Trump já mostrava descontentamento com o JCPoA. Usando de seu meio preferencial de comunicação, o Twitter, chamou o acordo de “incompetente” e “catastrófico”, como podemos ver abaixo:

IMAGEM 1 – TWEETS DE DONALD TRUMP (AGO/SET 2015)

Reprodução: Twitter/Conta oficial de Donald Trump

O futuro presidente se opunha ao fato de o acordo ter um prazo e não ter limitado o desenvolvimento de mísseis balísticos, críticas que ecoavam a posição de Benjamin Netanyahu, premiê de Israel, que pressionou para que o acordo não acontecesse desde o princípio. Em 2017, como presidente, Trump negou certificar ao Congresso dos EUA que Teerã continuava seguindo sua parte no Acordo. Além disso, demandou alterações, como a possibilidade de inspeções imediatas pela AIEA, limite às atividades nucleares sem um tempo previsto de encerramento e a incorporação do controle de mísseis balísticos. As propostas de Trump levaram a uma resposta de Hassan Rouhani, presidente do Irã, que alegou ser o acordo inegociável, como ilustrado abaixo:

IMAGEM 2 – TWEET DE HASSAN ROUHANI (SET/2019)

Reprodução: Twitter/Conta oficial de Hassan Rouhani

A situação continuou a se agravar até que em 2018 os Estados Unidos saíram do acordo unilateralmente e restituíram as sanções ao Irã como forma de pressão a renegociar os termos acordados. O Irã por sua vez desenvolveu suas capacidades nucleares gradualmente, não respeitando os limites estabelecidos previamente. Neste imbróglio, os países restantes do P5+1 tentaram compensar as sanções dos EUA e manter o acordo, ainda que o presidente francês, Emmanuel Macron, tenha manifestado inclinação a apoiar Trump, pressionando por uma renegociação.

As tensões entre EUA e Irã cresceram enormemente até janeiro de 2020, quando uma operação militar liderada pelos estadunidenses no aeroporto de Bagdá assassinou o general Qasem Soleimani, chefe da Guarda Revolucionária do Irã e principal figura militar do país, em retaliação a um ataque anterior. Alguns dias depois o Irã elevou o número de centrífugas que possuía rompendo o último termo que restava do acordo.

Dado o contexto e considerando a importância do JCPoA no cenário político internacional, seus desdobramentos geopolíticos e o número de países envolvidos, este ensaio analisa como os meios brasileiros cobriram o acordo nuclear e seus desdobramentos. Foram considerados dois momentos-chave: a data da assinatura, em julho de 2015, e o anúncio da saída dos Estados Unidos em 2018. De forma complementar, discutimos os textos que abordam o posicionamento de Trump em relação ao tratado nos anos posteriores à sua eleição e o modo como a mídia brasileira enquadrou tal posicionamento do presidente estadunidense. Foram analisadas as capas, manchetes e páginas de opinião dos três jornais mencionados.

A ASSINATURA DO ACORDO: CAPAS, MANCHETES E OPINIÃO

A mídia brasileira tratou o momento da assinatura do JCPoA como uma “vitória do multilateralismo” em suas capas e páginas de opinião. Entretanto, cada meio optou por abordar aspectos distintos do evento. No dia 15 de julho de 2015, data da assinatura do acordo, as capas dos três jornais analisados fazem menção ao tratado:

IMAGEM 3 – CAPAS DOS JORNAIS FOLHA DE SÃO PAULO, ESTADO DE SÃO PAULO E O GLOBO EM 15 DE JULHO DE 2015

Fonte: Acervos Digitais/Manchetômetro (2020)

Os jornais O Globo e Folha de São Paulo adotaram um posicionamento semelhante, conferindo posição de destaque ao acordo no topo da página. Ambos usaram a palavra “histórico” para classificar o episódio em suas manchetes principais. O Globo ressaltou ainda que a assinatura do acordo “fortaleceria” o próprio Irã e o legado do presidente Barack Obama já em seu último ano de mandato.

O Estadão também trouxe uma manchete com foto, porém, ao contrário de seus pares, que publicaram uma foto dos líderes mundiais presentes, o jornal optou por imagem de uma carreata nas ruas de Teerã de pessoas celebrando o acordo. Esta pode ser considerada uma tentativa de associar o tratado a uma “vitória das ruas” e um reforço de sua aceitação popular. O jornal, porém, deu menos destaque ao episódio, posicionando a manchete no canto inferior esquerdo de sua primeira página. Um aspecto que chama atenção na manchete associada é a menção feita a “volta ao circuito diplomático” do Irã.

Em relação às colunas e editoriais, foram analisados aqueles que trataram diretamente do acordo. Ainda no dia 15 de julho, editorial publicado no Globo ressalta a “vigilância” que o Ocidente deveria realizar para garantir a continuidade do acordo. Segundo o texto, a assinatura do JCPoA seria um “legado histórico de Obama”, posição reforçada pelos demais jornais. No dia 17, em editorial, o jornal abordou os impactos comerciais do acordo. Segundo o Globo, com o “relaxamento das sanções” (comerciais), o Irá voltaria a assumir o papel de exportador de peso no mercado internacional de petróleo, o que seria negativo para os interesses de Venezuela e Brasil. Tal ponto foi levantado exclusivamente por este jornal. Dois dias depois, em 19 de julho, o cineasta Cacá Diegues publica artigo no jornal no qual declara que o acordo seria um “passaporte de volta à comunidade internacional” para o Irã. Diegues celebra o acordo como um “legado do Ocidente”.

Na Folha de São Paulo, o editorial “O acordo, enfim” publicado em 15 de julho, enfatizou o processo moroso de consolidação do JCPoA e “celebrou” a conquista de Obama e Hassan Rouhani, presidente do Irã. No dia 16, artigo de opinião de Frank-Walter Steinmeier, Ministro de Relações Exteriores da Alemanha na época, intitulado “Momento de glória para a diplomacia”, também tratou o acordo como um feito “histórico”. Entretanto, em seu texto, Steinmeier refere-se ao grupo de países signatários como E3+3, um contraponto ao P5+1, comumente noticiado pelos jornais. A sigla usada pelo ministro reforça a participação do bloco europeu nas negociações e retira os Estados Unidos do centro das negociações.
A posição assumida pelo Estado de São Paulo é similar à observada nos demais jornais. Entretanto, alguns pontos anteriores à assinatura do acordo chamam a atenção. No dia 3 de janeiro de 2015, em coluna assinada, Marcos Guterman menciona tentativa do governo Lula de conduzir as negociações diplomáticas para a realização do acordo nuclear com o Irã e a descreve como “embaraçosa” e um “fiasco diplomático” causado por “excesso de confiança”.

Editorial publicado no dia 8 de abril com o título “Histórico Acordo EUA-Irã” não economiza palavras fortes para classificar o episódio, exortando uma “nova era” nas relações EUA e Irã caracterizada sobretudo pelo “pragmatismo”. Em 20 de abril, coluna assinada por José Goldemberg, professor emérito da Universidade de São Paulo e ex-Secretário de Ciência e Tecnologia, apresentou o acordo como elemento central para o impedimento do desenvolvimento nuclear do Irã e um caminho para a “busca de estabilidade no Oriente Médio”, ressaltando, porém, que o acordo não seria “perfeito”, mas que evitaria conjunturas mais críticas no futuro. Finalmente, no dia seguinte à assinatura do acordo, 16 de julho, o editorial “Promissor Acordo”, ressaltou a “maior façanha diplomática do governo Obama”.

O CAMINHO PARA A SAÍDA: CAPAS, MANCHETES E OPINIÃO

O momento de saída dos EUA ganhou destaque na capa dos três jornais em 9 de maio de 2018, no dia posterior ao anúncio da retirada feita pelo presidente estadunidense Donald Trump. O maior destaque coube à Folha de São Paulo, com manchete acompanhada por foto de Trump na Casa Branca no momento em que foi feito o anúncio. O jornal ainda ressaltou que a decisão tomada por Trump era coerente com sua “promessa de campanha”, mas que a postura do estadunidense seria “contrária a vontade dos principais aliados”. Diferentemente do primeiro evento, a foto escolhida para representar esse anúncio sugere que ele foi produto de decisão unilateral do governo Trump.

IMAGEM 3 – CAPAS DOS JORNAIS FOLHA DE SÃO PAULO, ESTADO DE SÃO PAULO E O GLOBO EM 9 DE MAIO DE 2018

Fonte: Acervos Digitais/Manchetômetro (2020)

No Globo e no Estadão não houve grande destaque. Ambos noticiaram o fato sem o uso de imagens. O jornal carioca colocou uma breve nota ressaltando a contrariedade do bloco de países europeus e uma suposta “reação” do Irã”. O Estadão dedicou espaço um pouco maior e enfatizou a resposta do Irã, citando o presidente, segundo o qual “o país voltará a enriquecer urânio mais do que nunca”, acrescentando que a medida poderia “aumentar a força conservadora” ora no poder no Irã, trazendo assim, segundo o jornal, “risco de conflito na região”.

O conteúdo das páginas de opinião focou nas ações e palavras de Trump mesmo antes de ele ser eleito. Em coluna publicada no Globo em 13 de novembro de 2016, Eli Lake, colunista de geopolítica e política externa da Bloomberg News, menciona que o Irã “estava excedendo a quantidade de água pesada, material utilizado para o resfriamento de reatores” (nucleares). Lake indica que o governo dos Estados Unidos atuou no caso comprando o excesso e complementa com a opinião de Trump sobre o acordo reforçando que o então candidato pediria “pontos mais rígidos” caso eleito.

Em 19 de janeiro de 2017, editorial do Globo ressaltou a característica unilateralista dos discursos de Trump e suas atitudes em endurecer o acordo a fim de isolar o Irã diplomaticamente. No editorial de 9 de agosto de 2018, o jornal abordou a retomada das sanções unilaterais pelos Estados Unidos sobre o Irã e a preocupação dos países europeus com a continuidade do Acordo. No texto, o meio adotou uma posição crítica em relação a Trump, considerando que a postura do presidente comprometeria a confiança em outros acordos dos quais os EUA também são signatários. Segundo o jornal, as ações de Trump colocariam o Irã em uma posição de fragilidade. Em O Globo, as decisões do presidente norte-americano foram descritas como como “impulsivas” e “imprevisíveis”.

Na Folha de São Paulo, a vitória eleitoral de Donald Trump foi interpretada como ameaça à continuidade do acordo. Editorial publicado em 18 de janeiro de 2017 voltou a tratar o JCPoA como um dos “legados” de Obama. Em outras ocasiões, a Folha sugeriu que a imprevisibilidade de Trump colocaria à prova alguns avanços da política externa dos EUA, tais como as relações com Cuba, a preocupação maior com mudanças climáticas e a diminuição das tropas no Iraque e no Afeganistão, além do receio a adoção a uma política externa isolacionista em geral.

No dia 9 de maio de 2018, em editorial intitulado “Roleta Iraniana”, o meio abordou a iminência de rompimento por parte dos Estados Unidos, frisando a posição de Trump de que o acordo seria “ruim” e que “beneficiaria somente o Irã”. Ainda no editorial, a Folha mencionou que o acordo “seguramente” tem imperfeições, mas que o isolamento diplomático do Irã se “constituiria em risco ainda maior” para a comunidade internacional. A preocupação com a posição do Irã e um possível confronto com os Estados Unidos foi elemento recorrente na mídia brasileira.

No Estado de São Paulo, editorial publicado em 10 de maio de 2018 caracterizou a saída dos EUA do acordo, dentre outras questões, como um “jogo perigoso”. O discurso do presidente dos Estados Unidos foi qualificado como “desabusado” e sua atitude como algo que “contrariou meio mundo”. No dia 15 de setembro, coluna de Celso Lafer, ex-ministro das relações exteriores nos governos Collor e Fernando Henrique, inseriu a quebra do acordo em um contexto maior do que ele chama de “diplomacia de erosão” por parte dos EUA.

CONCLUSÃO

A mídia brasileira celebrou o acordo nuclear como uma vitória e um legado da diplomacia do governo Obama por vezes colocando o feito como sua maior contribuição para o futuro da comunidade internacional. A centralidade conferida aos Estados Unidos pelos meios brasileiros colocou o país como o grande protagonista da ação, minimizando a participação de países europeus e a ação coordenada do Conselho de Segurança e do próprio governo iraniano nas negociações.

Há um discurso velado da imprensa brasileira sobre o Irã ter sido a parte a ser convencida e de que o país estaria sozinho prejudicando a estabilidade no Oriente Médio. Esta observação é possível a partir das manchetes que louvaram a conquista como uma “vitória” do Ocidente, sem considerar as concessões feitas pelo próprio Irã, com comprometimento do seu desenvolvimento nuclear, e as sanções impostas ao país, que afetaram gravemente sua economia.

Com eleição de Trump, os meios passaram a destacar as ações unilaterais e o temperamento do presidente. Poucos textos abordaram a saída dos Estados Unidos do acordo e suas implicações geopolíticas. Os jornais consideram que as ações de Trump são prejudiciais para a política externa estadunidense classificada como “isolacionista”, “erosiva”, “imprevisível” e “perigosa”.

A mídia brasileira opõe o “legado de Obama” às ações e declarações inoportunas de Donald Trump. O enquadramento oferecido pela imprensa personaliza o problema como se causado unicamente pelo republicano. Ao personalizar a análise, a mídia perde sua dimensão propriamente política. Por fim, não é feito nenhum apontamento sobre a constante atuação e intervenção dos Estados Unidos no Oriente Médio, seja no governo Obama seja no governo Trump. Fato é que o acordo tão celebrado como um “legado do Ocidente” ruiu de forma unilateral pela própria potência tão louvada e creditada pela conquista de sua realização.

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