ENTRE A APREENSÃO E O ALÍVIO: AS ELEIÇÕES FRANCESAS DE 2017 NA IMPRENSA BRASILEIRA
ENTRE A APREENSÃO E O ALÍVIO: AS ELEIÇÕES FRANCESAS DE 2017 NA IMPRENSA BRASILEIRA

Por Lucas Odilon dos Anjos e João Feres Jr
04/02/2021 -

Em 7 de maio de 2017, Emmanuel Macron foi eleito presidente da França em um segundo turno atípico para as eleições presidenciais francesas em décadas. Era a primeira vez desde a Constituição da V República, em 1958, que nenhum dos dois principais partidos do país – o Socialista, à esquerda no espectro político, e o Republicanos, à direita – estava concorrendo. A adversária de Macron naquela ocasião, Marine Le Pen, do partido de extrema-direita Frente Nacional, é figura conhecida por suas declarações racistas, xenófobas e pela defesa de uma plataforma de governo nacionalista e abertamente anti-União Europeia (UE). 

Na esteira dos inesperados resultados eleitorais de 2016, que consagraram Donald Trump nos EUA e deram a vitória ao Brexit no Reino Unido, a cobertura da política internacional na imprensa brasileira se debruçava justamente sobre o avanço de uma “onda nacional-populista” nas democracias ocidentais. Por essa razão, as eleições francesas de 2017 passaram a angariar cada vez mais atenção à medida que crescia a preocupação com as consequências globais de uma eventual vitória de Le Pen. Algo que, considerando os acontecimentos do ano anterior, já não parecia mais tão improvável. O mundo todo voltava seus olhos para a França e no Brasil não foi diferente. O resultado do pleito, que assumiu contornos decisivos, repercutiu amplamente na mídia tradicional.

Esse ensaio tem como objetivo fazer uma análise qualitativa da cobertura midiática das eleições francesas pela imprensa brasileira durante o período que compreende o segundo turno das eleições presidenciais, em 7 de maio de 2017, e o segundo turno das eleições legislativas, em 18 de junho do mesmo ano. Para tanto, foram analisadas as capas e os editoriais dos três jornais de maior circulação nacional – Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo (Estadão) e O Globo – que abordaram o evento ao longo deste período.

Se a possibilidade de mais uma importante democracia europeia acabar vítima da retórica antiliberal, contrária à integração regional, ao livre-comércio e à imigração causava nesses meios grande apreensão, não chega a surpreender que a tônica do debate público brasileiro após a vitória de Macron, sobretudo a de seu partido nas eleições legislativas, girou em torno da ideia de “alívio”. No entanto, como veremos a seguir, esse sentimento de alívio revela preferências muito claras da imprensa brasileira quanto aos caminhos considerados ideais para a política doméstica brasileira em tempos de forte contestação dos processos globalizantes.

CAPAS, MANCHETES E CHAMADAS

Os três jornais deram grande destaque à vitória de Macron no segundo turno das eleições presidenciais, estampando o resultado eleitoral nas capas do dia 8 de maio. Tanto Folha de S. Paulo como Estado estamparam em suas manchetes a sentença “Macron vence”. Em contrapartida, O Globo fez uma escolha de menor impacto visual, optando por posicionar uma chamada com foto e pequeno texto sobre as eleições francesas ao lado da manchete do dia.

Fonte: Acervos Digitais / Manchetômetro (2021)

Ainda sobre as capas do dia 8 de maio, observa-se um alto grau de semelhança da cobertura feita pelos dois jornais paulistanos, que assumiram um tom positivo e esperançoso nas manchetes em si e nos subtítulos. Ambos, Folha e Estadão, ressaltaram como a vitória do político francês classificado como “centrista” contribuía para “barrar o avanço” de uma “onda nacionalista/populista”. Para corroborar esse enquadramento, usaram de estratégias diversas, por exemplo: a) dar visibilidade ao resultado numérico das eleições [i]; b) adjetivar como “ampla” ou “expressiva” a margem de votos entre o candidato vitorioso e sua adversária; c) fazer referências a idade de Macron, o mais novo presidente a ocupar o cargo na França; d) trazer citações ou parafrasear o seu discurso de vitória. Como contraponto ao otimismo, o Estadão dá destaque aos relevantes 10,6 milhões de votos recebidos por Le Pen e aos protestos da oposição de esquerda, ao passo que a Folha menciona os números recordes de votos brancos e nulos e da taxa de abstenção.

Tendo dedicado o menor espaço de texto às eleições francesas em sua capa, O Globo expressou grande preocupação com o “desafio das eleições legislativas”, que aconteceriam em junho. Apesar de o jornal carioca ter qualificado o feito do “mais jovem presidente da França” como uma “vitória folgada”, sua curta chamada teve como tom predominante a cautela: faltava agora “conquistar o Parlamento” para poder aprovar medidas como a reforma trabalhista. Conforme sugerido neste ensaio, a menção específica desde a capa não ocorre por acaso.

No dia 9 de maio de 2017, a repercussão das eleições francesas continua em destaque na imprensa brasileira e todos os três jornais fazem chamadas de capa para a cobertura disponível no interior dos periódicos.

Fonte: Acervos Digitais / Manchetômetro (2021)

Ao contrário do dia anterior, o Estadão assume uma postura mais neutra, limitando-se a informar sobre aquela que seria a primeira medida adotada pelo governo de Macron: a reforma política, parte de um programa de seis “grandes reformas”. A Folha também adota linguagem mais analítica e menos comemorativa, destacando a necessidade de o novo mandatário transformar o movimento que o elegeu em uma “estrutura de governo” que o permita conquistar cadeiras no legislativo e assim cumprir promessas de campanha. Já O Globo transforma seu tom mais cauteloso da véspera em quasi-ceticismo: sua chamada, intitulada “Macron assumirá já sob pressão”, coloca em evidência tanto a ausência de estrutura partidária organizada quanto os primeiros protestos que rondam o novo presidente, que precisará “provar” sua capacidade de governar aos franceses e parceiros da Europa.

Os veículos midiáticos brasileiros voltaram a repercutir o período eleitoral francês no dia 19 de junho de 2017. Dessa vez, por ocasião do resultado final das eleições legislativas, que foram decididas em dois turnos, nos dias 11 e 18 daquele mês. Novamente, os três jornais voltaram a tratar do tema em suas capas, no entanto, com menor destaque e cada um de maneira um tanto diferente das tendências apontadas durante a cobertura da vitória de Macron nas eleições presidenciais semanas antes.

Fonte: Acervos Digitais / Manchetômetro (2021)

Na capa do dia 19 de junho, o Estadão – que no dia 8 de maio havia demonstrado grande entusiasmo com a vitória de Macron e dedicado bastante espaço à repercussão do evento –, se limitou a noticiar o resultado favorável das eleições legislativas em uma chamada breve e sem nenhum texto anexo: “Partido de Macron faz maioria na Assembleia”. A Folha, que em um primeiro momento também adotou um tom positivo e otimista ao noticiar sobre as eleições presidenciais, na capa do dia 19, optou por uma comunicação maisdireta, descritiva: “Eleição dá a Macron maioria na Assembleia”.

Enquanto isso, O Globo, que tinha sido o mais cauteloso dos três veículos ao noticiar a vitória presidencial, muda consideravelmente sua abordagem a partir do êxito de Macron também nas eleições legislativas. O título da chamada de capa – “Caminho aberto para as reformas de Macron” – e o pequeno texto que a acompanha entregam um renovado interesse do periódico pela figura do novo presidente. O entusiasmo é visível no enquadramento de ares definitivos dado a essa segunda vitória e transparece na escolha de palavras: “conquistou ontem ampla maioria”; “ganhou sinal verde para seu programa de governo”. O jornal carioca volta a mencionar especificamente a reforma trabalhista, porém se antes predominava a apreensão quanto a possibilidade de aprovação, agora resta a certeza de seu respaldo popular. Uma interpretação dos fatos um tanto precipitada visto que se trata de um país no qual a causa trabalhista e os sindicatos têm forte tradição e historicamente tem demonstrado ampla capacidade de resiliência conforme evidenciaram as  recentes manifestações contra a reforma da previdência, por exemplo. Após várias semanas de protestos de rua e greves sindicais em toda a França na virada de 2019 para 2020, o governo de Macron recuou da proposta de aumento da idade mínima para a aposentadoria integral e acabou recorrendo a um controverso artigo constitucional para conseguir aprovar seu projeto sem votação na Assembleia Nacional no ano passado.

EDITORIAIS DE O GLOBO: OBSESSÃO COM A REFORMA TRABALHISTA 

Ao longo do período analisado, O Globo publicou três editoriais. O primeiro[ii], do dia 6 de maio de 2017, véspera do segundo turno das eleições presidenciais, se concentra em apresentar o caráter extraordinário e decisivo do pleito que se avizinhava. Na visão de O Globo, Le Pen é um “risco real de ruptura” não só para a Europa, mas para o Ocidente como um todo, podendo provocar um “abalo maior do que tiveram o Brexit e a vitória de Donald Trump”. Em meio a essa previsão catastrófica, Macron desponta como o candidato de fora do establishment que traz, “num sopro de vitalidade”, tanto propostas de maior integração à UE quanto de austeridade fiscal. A opinião do jornal assume então contornos morais: apesar das pesquisas apontarem para uma vitória folgada de Macron, o indício de uma “perigosa abstenção” da esquerda crítica ao candidato é um “grave erro, diante da ameaça neofascista” de Le Pen.

O segundo editorial de O Globo[iii], publicado no dia 9 de maio, celebra a vitória de Macron como um “marco histórico”. No diagnóstico do jornal, o resultado revela que o eleitor francês procurou alternativas aos partidos tradicionais, mas não quis entrar em “aventuras” que, além de comprometerem décadas de integração europeia, ratificariam “ideias extremistas”. Nessa esteira, ganham destaque positivo tanto a jovialidade quanto a franqueza de Macron na defesa de sua plataforma de “centrismo radical”.

No dia 20 de junho, O Globo publica seu último editorial sobre o tema[iv], endereçando agora o bom desempenho do recém-criado partido de Macron – Republique En Marche! (REM) – nas eleições legislativas. O entusiasmo do periódico com a figura do novo presidente francês, já expressado no editorial anterior, é aqui aprofundado. Não obstante, o principal mote a ser explorado dessa vez é o da “renovação política”: a França de Macron como um “laboratório”, uma “experiência radical” nesse sentido, “almejada por tantas sociedades, inclusive a brasileira”. A constatação do jornal de que o resultado eleitoral francês reflete uma espécie de desejo popular global por mudança permite compreender melhor quais dimensões concretas de política pública advém da superficial noção de “renovação política” com a qual trabalha a mídia hegemônica brasileira.

Para O Globo, uma das ações que encabeça esse rol de renovação, por exemplo, é “dar flexibilidade às relações trabalhistas”. Traçando um raso e contestável paralelo entre os panoramas trabalhistas na França e no Brasil, dois países com realidades sociais profundamente distintas, o jornal transforma seus comentários sobre as eleições francesas em mais uma plataforma para reforçar sua agenda doméstica pró reformas liberalizantes. É assim que a conclusão desse editorial reduz a pluralidade do movimento sindical brasileiro a “corporações” minoritárias na sociedade, que estariam lutando pela “manutenção de privilégios” em nome de um “povo” (grafado no original assim, entre aspas) que não representam.

Embora não se sustentem, as comparações entre o cenário francês e o brasileiro ganham especial relevância porque não se inserem em um vácuo histórico, muito pelo contrário. Nessa mesma época, a reforma trabalhista do governo Temer estava em tramitação no Congresso Nacional[v], e é a partir deste contexto doméstico que devemos ler a reiterada preocupação de O Globo com as prováveis manifestações sindicais que o governo Macron iria enfrentar para levar adiante seu programa de reformas.

EDITORIAIS DA FOLHA DE S. PAULO: “MODERAÇÃO” CONTRA O “RADICALISMO”

A Folha também publicou três editoriais durante a cobertura das eleições francesas, mas trilhou um caminho ligeiramente diferente de O Globo. No texto do dia 9 de maio[vi], intitulado “O desafio de Macron”, o tom predominante na análise de sua vitória não é de otimismo, mas de ponderação. Ao mesmo tempo em que o periódico celebra mais uma derrota da extrema-direita na Europa, pondera que 42% do eleitorado francês votou em candidatos “radicais” no primeiro turno das eleições, incluindo nesta classificação não só Le Pen, mas também Jean-Luc Mélanchon, do partido de esquerda França Insubmissa[vii]. Para o jornal, o sucesso do programa de reformas de Macron, não à toa descrito como “moderado”, era a chave para um triunfo sobre o “radicalismo” crescente no país, entretanto dependia de seu desempenho nas eleições legislativas.

Em um segundo editorial[viii], publicado no dia 13 de junho, dois dias após o primeiro turno das eleições legislativas, a ponderação inicial da Folha dá lugar à celebração entusiástica: “a reviravolta liderada por Emmanuel Macron continua”. Destaca-se, por exemplo, que a origem de grande parte dos candidatos ao parlamento pelo République En Marche! (REM) está na sociedade civil. O periódico também descarta suas dúvidas quanto à posição de Macron na intrincada correlação de forças políticas francesas: “sua provável vitória parlamentar reduz dramaticamente a relevância das legendas históricas”. Apesar de pontuar que é preciso esperar a concretização do resultado no segundo turno e de mencionar o nível recorde de abstenção, a conquista da maioria por Macron é praticamente dada como certa, o que é visto pelo jornal de forma positiva, já que permitirá levar a cabo seu programa sem a necessidade de alianças.

A Folha publica ainda um último editorial[ix], no dia 25 de junho, que tem como ponto de partida a vitória do programa reformista de Macron nas eleições legislativas, mas cujo foco central está em como seu saldo eleitoral abre “prognósticos mais positivos” para a União Europeia como um todo. Para o jornal, a melhora no cenário econômico do bloco nos últimos anos, bem como a imprevisibilidade de Trump são fatores que reforçam a necessidade de integração. Nesse caso, o tom cauteloso volta a marcar a opinião da Folha, para quem a aceitação das propostas de Macron pela UE, como o orçamento unificado e um mecanismo de ajuda para países em crise, dependerá do seu desempenho em “arrumar a própria casa antes”. Assim, fica evidente em seus editoriais que a Folha atribui o crescimento de uma “onda populista conversadora” ao impasse político-partidário que há anos limita a agenda de reformas na França e prejudica uma parceria mais promissora com a Alemanha no âmbito europeu.

EDITORIAIS DO ESTADO DE S. PAULO: SUPERAÇÃO DA CRISE DE REPRESENTATIVIDADE?

O Estadão, por sua vez, publicou dois editoriais durante o período eleitoral francês: o primeiro no dia 9 de maio, após a vitória de Macron nas eleições presidenciais; e o segundo no dia 20 de junho, depois do sucesso do REM nas eleições legislativas. Nesses dois momentos, o jornal assumiu tons bastante distintos, tendo passado inicialmente de uma análise distanciada para só então expressar mais explicitamente sua empolgação com o novo presidente e a “renovação” que ele supostamente representava.

O primeiro texto[x] – “Limites da vitória de Macron” – dá muita ênfase às incertezas que o rondam: o redesenho das forças políticas tradicionais do país; o tempo exíguo para formar um governo e estruturar um partido para as eleições legislativas; a aplicabilidade do programa reformista num eventual governo de coalizão, entre outras. Nesse contexto, o Estadão identifica duas reações ao resultado eleitoral: de um lado, o alívio da UE e dos mercados financeiros; de outro, a apreensão por conta dos “limites” de sua vitória, como a alta taxa de abstenção e os numerosos eleitores que votaram em Macron apenas por falta de opção. Por fim, o jornal condiciona o futuro da União Europeia, “com todo o peso que, apesar dos problemas, ela tem no mundo”, ao sucesso do novo presidente, deixando evidente sua torcida em prol da solidez do bloco.

Já no segundo editorial[xi], tais “limites” desaparecem magicamente, a começar pelo próprio título do texto, que agora passa a uma constatação direta: “A vitória de Macron”. Para o jornal, o sucesso do REM nas eleições legislativas “muda em profundidade o panorama do país” e “fortalece a UE”. Destaca-se ainda a “ampla renovação dos quadros políticos”, com mulheres e jovens à frente desse processo, o que colocaria a França no caminho de superar, “sem maiores abalos”, a crise de representatividade que afeta diversos países pelo mundo. Contraditoriamente, logo após essa interpretação que conecta, sem o devido aprofundamento, a renovação proporcionada pelo REM a uma maior representatividade, o periódico destaca um dos pontos fracos da “vitória de Macron”: a alta taxa de abstenção.

Buscando minimizar esse fato inconveniente, o Estadão tenta proteger o calcanhar de Aquiles do seu argumento sustentando que se a abstenção chegou a recordes históricos, ultrapassando então metade do eleitorado (56,6%), é porque ela já vinha crescendo desde pleitos anteriores, sendo um problema que afeta todo o sistema político francês, não se restringindo, portanto, a uma possível rejeição a Macron.

CONCLUSÃO: DOS “LIMITES DA VITÓRIA” À “VITÓRIA DOS LIMITES”

A reboque dos resultados eleitorais inesperados de 2016, as eleições francesas de 2017 constituíram um evento crítico que permite enxergar como as aparentemente distintas arenas de política doméstica e política internacional estão intimamente interligadas na cobertura midiática e foram articuladas de modo a reforçar o compromisso da editoria desses jornais com a promoção de reformas liberais no Brasil. Dado que o sucesso de sua agenda de reformas pró-mercado estava em jogo em nível mundial, ao reportarem a ascensão de Macron ao poder, os veículos oscilaram entre a expressão de sentimentos de apreensão e de alívio. Pendendo ora para um lado ora para outro, este último sentimento tendeu a prevalecer e a se estabilizar a partir da vitória do partido do presidente nas eleições legislativas porque os três jornais interpretaram que ali a força de seu programa de governo havia aumentado consideravelmente.

De forma geral, emergiu nesse contexto um superficial e ilusório discurso que colou a imagem de Macron às ideias de “renovação política” e de “superação dos extremos”. Ressaltando sua jovialidade e franqueza, essa narrativa buscou construir Macron como a resposta política moderada para a “crise de representatividade” que muitas democracias atravessam, sendo um exemplo a ser seguido no Brasil. A identificação imediata dos três jornais com a agenda reformista de Macron evidencia, assim, dois aspectos importantes da arena pública na contemporaneidade. Primeiro, como a grande mídia insiste na narrativa que toma as apostas tecnocráticas da ortodoxia econômica como necessidades incontestáveis; segundo, como essa tendência inibe a formação de espaços de debate verdadeiramente plurais sobre os próprios limites da participação popular no modelo de governança arquitetado pelos países ocidentais no pós Segunda Guerra Mundial e radicalizado a partir da virada neoliberal dos anos 1980.

A preocupação em fabricar a roupagem da “renovação” e da “modernização” para as reformas de Macron colocou em segundo plano sinais importantes das urnas, como, por exemplo, os níveis recordes de abstenção verificados naquelas eleições de 2017. Como forma de minimizar a rejeição ao novo presidente, os jornais brasileiros, ironicamente, se abstiveram de fazer qualquer consideração mais profunda sobre os sentidos reais da abstenção, aceitando como suficiente a explicação de que essa é uma característica que vem se consolidando nas democracias maduras. Assim, os diferentes matizes de insatisfação popular em países de renda alta – cujas classes médias e trabalhadoras atribuem aos processos globalizantes perdas importantes de bem-estar que experimentaram nas últimas décadas – vem sendo reduzidos pela imprensa a um fenômeno coeso, o que não não contribui para jogar luz sobre a complexidade da atual crise por que passa o liberalismo.

Por fim, se em diversos momentos os jornais reconheceram alguns dos “limites” da candidatura de Macron, eles foram objeto cada vez menor de preocupação e escrutínio à medida que foi possível enquadrar seu êxito como uma “vitória” que impunha limites ao “radicalismo” e ao “extremismo” que tomavam de assalto o ocidente liberal. Não por acaso a ideia de “barrar a onda nacional-populista”, ou seja de estabelecer limites a sua extensão, foi por vezes evocada e ganhou destaque nas manchetes da Folha e do Estadão, por exemplo. Contudo, conforme sugiro aqui, essa “vitória dos limites”, tão celebrada pela mídia hegemônica no caso em tela, reflete, na verdade, seu poder desigual de pautar de cima para baixo o que constitui um reformismo virtuoso, como esse que investiram em Macron.

Lucas Odilon dos Anjos é internacionalista e antropólogo. Atualmente doutorando em Antropologia Social pelo Museu Nacional/UFRJ, pesquisa a relação entre Estado, sexualidade e regimes de mobilidade humana transnacional no Brasil contemporâneo. Pesquisador do LEMEP.

[i] No segundo turno das eleições, Macron obteve 66,06% dos votos válidos, contra 33,94% para Le Pen.

[ii] “Eleição na França amanhã vai redesenhar a Europa”, O Globo, p. 18, 06/05/2017.

[iii] “França de Macron reforça integração europeia”, O Globo, p. 12, 09/05/2017.

[iv] “França vira laboratório de renovação política”, O Globo, p. 14, 20/06/2017.

[v] Após aprovação pela Câmara Legislativa em abril de 2017, a reforma trabalhista aguardava ser apreciada pelo Senado Federal, onde foi aprovada em definitivo no dia 11 de julho daquele ano.

[vi] “O desafio de Macron”, Folha de São Paulo, p. 2, 09/05/2017.

[vii] Durante o período analisado, tal partido foi frequentemente classificado pela mídia impressa brasileira como pertencente à “extrema-esquerda”.

[viii] “Revolução partidária”, Folha de São Paulo, p. 2, 13/06/2017.

[ix] “Verão europeu”, Folha de São Paulo, p. 2, 25/06/2017.

[x] “Limites da vitória de Macron”, O Estado de São Paulo, p. 3, 09/05/2017.

[xi] “A vitória de Macron”, O Estado de São Paulo, p. 3, 20/06/2017.

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